FERIADOS VIVOS E MORTOS
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O
discurso presidencial na Assembleia da República no dia 25 de Abril
repetiu mais uma vez um tema recorrente nesse tipo de discursos: o que
fazer com este dia para ele parecer “vivo” e não morto?

Ao
longo dos anos, esta Câmara tem-se reunido em sessão solene para
assinalar a passagem do dia 25 de Abril. Esta cerimónia tem vindo a
repetir-se durante as últimas décadas, ano pós ano, sem grandes
alterações de fundo.
Creio que
é chegado o tempo de nos confrontarmos com algumas interrogações. De
tão repetida nos mesmos moldes, o que resta verdadeiramente da
comemoração do 25 de Abril? Continuará a fazer sentido manter esta
forma de festejarmos o Dia da Liberdade, ou será tempo de inovar?

Estas dúvidas trazem consigo uma outra pergunta: não estarão as
cerimónias comemorativas do 25 de Abril a converter-se num ritual que
já pouco diz aos nossos concidadãos?

Preocupo-me sobretudo com o sentido que este Dia da Liberdade possui
para os mais jovens, para aqueles que nasceram depois de 1974. É deles
o futuro de Portugal. O que dirá este cerimonial às gerações mais
novas? É uma pergunta que não posso deixar de colocar à reflexão dos
Senhores Deputados à Assembleia da República.

(Discurso de Cavaco Silva)

O
que fazer com o 25 de Abril para não parecer mais um dia em que não se
trabalha e se vai para o Algarve? A pergunta já fora feita por Eanes,
Soares e Sampaio, quer a propósito do 25 de Abril, quer a propósito do
5 de Outubro. O que é que leva os presidentes a interrogar-se sobre o
sentido do seu papel nas sessões solenes da Assembleia da República
todas as vezes que têm de falar num feriado com origem histórica e
cívica, já que nunca vi nenhum presidente interrogar-se sobre os
feriados religiosos? Mais: por que razão essa interrogação se concentra
nas cerimónias do 5 de Outubro e, em particular, nas do 25 de Abril e
não se coloca com a mesma acuidade no 10 de Junho e muito menos no 1º
de Dezembro? A razão é contra-intuitiva, mas é bem simples: é que o 25
de Abril ainda é um feriado vivo e, por isso, divide e é controverso.

Quando
um presidente se interroga sobre o 25 de Abril e a sua eficácia
comemorativa, está a fechar os olhos a uma evidência que passa a meia
dúzia de metros da Assembleia: a “manifestação popular” do 25 de Abril
que o PCP, a Intersindical, o BE, uma mão-cheia de pequenos grupos da
extrema-esquerda que ainda existem e a ala esquerda do PS patrocinam
com considerável sucesso na Avenida da Liberdade. Este ano até com um
sucesso maior, dado que a “rua” tem estado bastante cheia de
manifestações com grande quantidade de pessoas, devido ao agravamento
da situação económica e social portuguesa. Mas esta manifestação é uma
não-entidade, um curioso caso de como uma coisa que existe não existe
nem para os media, nem para o Presidente, nem para a mecânica da
opinião pública e publicada. Só a transformação deste 25 de Abril
“popular”, ou seja, da “esquerda”, numa fantasmática irrealidade é que
permite que o Presidente e os seus ecos governamentais digam, com
absoluta calma e naturalidade, aquilo que, pelo menos para esta data,
não é verdadeiro: que existe um problema de interesse e mobilização à
volta do feriado do 25 de Abril. Bem pelo contrário, o 25 de Abril é um
dos poucos feriados “vivos” que ainda existem, contrastando com a morte
do 5 de Outubro (para todos menos os mações e os monárquicos) e dos
outros feriados cívicos.

Várias
fotos das “manifestações populares” do últimos anos, incluíndo a de
2007. Numa demonstração suplementar do carácter de não-acontecimento
destas manifestações está a enorme escassez de fotografias disponíveis
em linha, e dos resultados das pesquisas de imagem no Google.

Basta
ver os blogues, que têm uma linguagem menos politicamente correcta,
para se perceber que mesmo entre os jovens politizados ele está mais
“vivo” que na própria Assembleia da República. Na Rede, uma parte da
“direita”, incluindo os jovens lobos da clientela de Paulo Portas, ou o
seu espelho perfeito, os aderentes radicais chic pós-25 de Abril do BE,
mantém uma enorme carga de politização do 25 de Abril, um 25 de Abril
já completamente abstracto mas que ainda funciona como grande divisor
na procura quase doentia de identidade que têm os grupos radicais.

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interessante revelador dessa politização, duplamente “politicamente
incorrecto” porque não cabe nem no discurso oficial, nem “popular” (ou
seja do PCP e seus aliados) foi a “manifestação anti autoritária contra o Capitalismo, contra o Fascismo
que esteve na origem de distúrbios, vandalismo e prisões na zona do
Chiado. A violência da extrema-esquerda não encaixa no discurso oficial
e por isso não pode ser tratada como tal (diferentemente da violência
da extrema-direita) pelo que as reportagens noticiosas valorizaram a
carga policial e não o vandalismo claramente organizado da “autodefesa“.

A sua convocatória apelava ” à
participação activa num acto de resistência à farsa Nazionalista, que
terá início na Praça da Figueira, depois da manifestação do 25 de Abril
ter terminado. Acreditamos que a impunidade e o à vontade com que os
vários grupos “nazis” “fascistas” ou ditos “nacionalistas” agem tem de
ser combatida aqui e agora, e sabemos que esse não é nem será nunca a
tarefa de qualquer polícia ou instituição estatal, pelas suas
afinidades e cumplicidades. A nossa denúncia é popular, não judicial.


Como tal, acreditamos que devemos exercer e expandir a autodefesa
contra qualquer tipo de agressão por parte desses grupos que fazem o
trabalho sujo que os capitalistas não querem fazer. (…)

Esta manifestação, que é proposta por grupos libertários e autónomos, è
aberta à participação de todas as pessoas e ideias que, de uma forma
não partidária, desejam expressar a sua revolta e determinação, numa
manifestação popular e unitária. Queremos deixar bem claro que somos e
seremos capazes de nos organizar para agir e reagir sempre que
necessário. Desejamos que a manifestação seja uma prova de força e
determinação, chegando até ao seu final sem
problemas nem distúrbios. Mas nunca renunciaremos ao nosso direito de autodefesa.”

O problema é que a “vivacidade” do 25 de Abril, nas manifestações
“populares” ou nos grupos radicais à direita e esquerda, é
politicamente inconveniente e não é assimilável pelo discurso oficial
que hoje une o Presidente com o primeiro-ministro e o PS, grande parte
do PSD, e que obtém o lip service
complexado do CDS-PP. Por isso têm que o matar para pretender
ressuscitá-lo como outra coisa: um feriado morto, que se ensine nas
escolas com a distância da viagem de Vasco da Gama e a unanimidade da
opulência manuelina. No fundo a queixa é, digamos assim, pedagógica, as
escolas não ensinam bem a “liberdade”, como não ensinam bem a “boa
educação”, mudemos pois as coisas senhores deputados, em nome do 25 de
Abril.

Tudo o que aqui digo sobre o 25 de Abril se aplica ao 1º
de Maio, que também é um feriado “vivo”, mas comemorado do lado
não-existente. Pode aparecer um milhão de pessoas nas manifestações que
a intelligentsia mediática aborrece-se com o evento com a mesma
sensação de inutilidade que lhe dá a imprensa “económica” cheia de yuppies:
são restos do Portugal “velho” que não quer reformas, nem progresso
económico, nem dinamismo e flexibilidade empresarial, logo não existe
para a política do presente. Para esta forma de “pensamento único” a
nulificação do 25 de Abril e do 1º de Maio é uma forma de combate
político, como para o PCP o é a sua afirmação nas ruas como componente
do discurso comunista.

A ideia que a comemoração do 25 de Abril
deve ser dirigida aos “jovens”, essa outra entidade mítica da política
moderna num país que tem cada vez menos jovens e cada vez mais velhos,
é, bem vistas as coisas, um pouco absurda. Dirigi-la aos velhos teria
certamente mais sucesso, porque para eles a data significa muito, muito
bem ou muito mal, mas muito. Os retornados, os opositores ao regime de
Salazar-Caetano, a elite que apoiava e beneficiava com a ditadura, o
povo comum que nos primeiros dias depois de 25 de Abril “viveu” de
forma existencialmente intensa uma revolução, as vítimas do PREC, todos
os mais velhos têm alguma coisa a dizer sobre o 25 de Abril. Para os
mais novos é em grande parte mais um TPC, mais umas aborrecidas aulas
sobre o sinistro Salazar “que matou muita gente” e sobre a “liberdade”,
algo de tão abstracto porque felizmente ainda existe como o ar que se
respira, ou seja, não se dá por ela a não ser quando não se tem.

Nos
jovens, o 25 de Abril já está no mesmo catálogo de ignorância,
irrelevância e indiferença que o feriado cívico que veio substituir, o
5 de Outubro. Já ninguém se recorda, mas o 5 de Outubro já esteve há
uns anos tão “vivo” como hoje ainda está o 25 de Abril, quando os
gritos dos republicanos, o que significava na prática a Maçonaria, de
“viva a República” eram dados com lágrimas nos olhos e na expectativa
da carga policial à porta dos cemitérios ou dos monumentos que
lembravam os próceres da República. Depois, pouco a pouco, as
“romagens” aos cemitérios foram tendo cada vez menos gente, que se
gritava emocionada “viva a República” era da campa ao lado e não os
ouviam os vivos. Mas, convém lembrar, o Portugal de 2007 ainda não é o
Portugal dos jovens sem história, nem demográfica nem socialmente.

O
1º de Dezembro e o 10 de Junho são feriados ambíguos, porque os eventos
que lhes deram origem já se apagaram de todo da memória colectiva.
Esses sim estão completamente mortos, tanto mais mortos que ninguém
pergunta sequer como os “transmitir aos jovens”. Não estou a imaginar
uma turba a atirar Pina Moura pela janela como fez a Miguel de
Vasconcelos, nem camoneanos saudosos nas “comunidades” a recitar o vate
pátrio e a mobilizar-se para a cerimónia das condecorações. A única
parte “viva” do 10 de Junho é também aquela que escondemos: a memória
dos militares mortos nas guerras coloniais, duplamente esquecidos,
porque a sua memória choca com a parte “viva” do 25 de Abril e porque
somos um dos poucos países que, tendo tido uma guerra recente, não
temos sequer a dignidade da lembrança para oferecer aos que nela
morreram, porque temos pouco respeito por nós próprios.

Resta
pois o único feriado “vivo” de carácter histórico e cívico, o 25 de
Abril, porque continua controverso e divisor, politicamente pouco
neutro e mexendo com a paixão ou a repulsa das pessoas que o viveram e
que ainda são muitas. Mas, como em tudo, é só esperar que o tempo o
mate. A entropia fará o serviço de reduzir o 25 de Abril ao 5 de
Outubro, como reduziu o 5 de Outubro ao 10 de Junho e o 1º de Dezembro
a nada. Ficou alguma coisa? Ficou e muita, mas perderá a data como
referência e ainda bem, porque significa que teve sucesso depois de
estarmos todos mortos.

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